O festival de baixarias virtuais, de casuísmos e de desrespeito à vontade da base do partido marcaram o período da pré- conferência eleitoral do PSOL e desqualificaram a própria conferência, na medida em que menos da metade dos delegados eleitos se credenciou. A maioria da executiva nacional não aceitou o credenciamento de toda a delegação do Acre e parcelas de delegações de Minas, Goiás e outros. Os delegados do MTL, MES e independentes não aceitaram participar de uma farsa onde o perdedor usou do tapetão para virar o jogo. A anulação das delegações legitimamente eleitas na base foi mais um ato de desrespeito ao partido, entre tantos que assistimos. A maioria da executiva determinou que os filiados não delegados não poderiam participar nem como observadores. A conferência foi fechada. Planejaram contratar 100 seguranças ao custo de 20 mil reais. Isso por medo que os “marginais, milicianos, despolitizados, etc” do MTL invadissem o local e instaurassem a violência física, inviabilizando a conferência e a vitória da candidatura revolucionária de Plínio, estranhamente aclamada por consenso . Foi uma clara demonstração de um preconceito latente. O mesmo preconceito que fez a classe média e a burguesia de Niterói tremer e divulgar arrastões e vandalismo por conta da manifestação dos desabrigados. Pra essa gente, juntou meia dúzia de pobres é arrastão. Dizemos isso com revolta, pois a conferência que realizamos com mais da metade dos delegados eleitos na base- 92- foi um dos momentos mais bonitos que vivi no movimento nos últimos anos. Estavamos entre seringueiros do Acre, sem terras de Minas, Goiás e Rio, motoristas, professores, enfermeiros, técnicos de saúde, domésticas, cozinheiras, advogados, engenheiros, profissionais liberais, desempregados, juventude estudante e trabalhadora. Essa era a cara da “horda de bárbaros” que invadiria a conferência dos iluminados e educados. A vitalidade desse povo, a energia revolucionária e a esperança de vitória na luta que travaremos pela retomada do partido enchia o ar de perfume e nossos olhos de lágrimas. A dor veio por ver que tamanho preconceito, difamação e violência política vinham de companheiros da esquerda, que tendo passado por isso no PT, foram generosamente recebidos no partido que nós concebemos, gestamos e choramos ao ver nascer. Para isso a massa de desvalidos serviu: para assinar com seu título eleitoral, não mais um voto de cabresto, mas a certidão de nascimento do PSOL. Também serviram os 7 milhões de votos resultantes do franco e caloroso diálogo de Heloísa Helena com o povo. Os bárbaros do MTL também serviram para campanhas de parlamentares, para tantos atos públicos e para dar um verniz popular ao partido. Mas não servem para serem delegados à conferência nem para determinar os rumos do partido. Querem mudar a cara da criança.
Aliás, a questão da Heloísa Helena é impactante. As agressões que a companheira sofreu no Congresso Nacional do Partido no ano passado, a campanha de calúnia, de ridicularização de sua imagem pela internet e agora a cassação de seus atributos como presidente do partido não devem ser aceitas e devemos denunciar. Não se trata de culto à personalidade como o outro bloco acusa. Mas, sim de reconhecimento que a companheira sintetiza um diálogo e um programa de partido que precisa ser multiplicado em militantes que possam dirigir todo o processo partidário. A hipocrisia é tanta que queriam Heloísa como candidata a presidente do Brasil- para isso servia- mas não para presidente do partido.
O PSOL está rachado. Isso está claro pra todos. Mas realizamos um debate profundo e amadurecido sobre nosso papel na conjuntura e nossa responsabilidade nos rumos dos movimentos. Poderíamos entrar na justiça e questionar o resultado e a própria conferência, mas todo desgaste desse processo judicial também cairia sobre nós e não haveria vencedores. A eleição de nossos parlamentares e o CONCLAT são duas tarefas que se colocam acima da luta interna nesse momento e também fazem parte dela. Digo isso, pois a melhor resposta a essa turma deve vir da nossa base e da demonstração de disposição que temos para a luta. Eleger Heloisa Helena como senadora, Luciana Genro deputada federal, Martiniano e Janira deputados estaduais faz parte dessa disputa. Enquanto isso estaremos filiando, discutindo e formando núcleos partidários para sermos maioria no congresso extraordinário que convocaremos, seja por acordo com a executiva ou seja com a assinatura de dois terços dos filiados. É preciso retomar a direção do PSOL não para sermos maioria simplesmente, mas para continuar a construir um partido que se coloque diante da conjuntura com capacidade de modificar a realidade através das mobilizações concretas e não do propagandismo etéreo. Uma grata surpresa foi a candidatura a deputado federal do Jean (aquele do Big Brother). Na sua fala Jean apresentou sua trajetória de vida e também de militância. Foi através de uma conversa com Heloísa Helena que Jean veio para o PSOL. Aposta no partido de massa e na luta do povo. Foi uma fala surpreendente e articulada.
Aqui no Rio a campanha a governo do estado está por nossa conta, já que o outro bloco se absteve na votação do Jeferson como candidato e com certeza está fora.
No CONCLAT precisamos ter uma bancada representativa do peso que tivemos na construção política do processo de reconstrução. Ao sairmos da CONLUTAS apostamos na unificação e ajudamos a coesionar o PSOL em torno desse projeto. O peso de nossa política e atuação ficou claro nas plenárias nacionais. Agora, por conta da realidade do PSOL sabemos que haverá realinhamento político também no CONCLAT. É da vida.
Por último, para nós fica muito claro a concepção doentia que está se estabelecendo em relação à internet e à tecnologia. Para os governos é lavagem de dinheiro através dos computadores nas escolas. Para outros é uma forma, não de comunicação , mas de propagação rápida de difamações, afirmações mentirosas, depreciação da imagem das pessoas, tudo isso sob o calor confortável da impunidade. É o reino da covardia. Não é a forma de militância que queremos. Não precisamos depreciar a imagem de ninguém e também irradiar falácias. A militância virtual deve ajudar na organização dos movimentos, não substituir os fóruns legítimos da classe. Temos todas as condições de estabelecer esse debate nas instâncias do movimento e no partido. E devemos fazê-lo.
Não basta que seja pura e justa a nossa causa
é necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós!!
(poemas de Angola- Agostinho Neto)
Boletim sobre a CONAE
Há 2 anos