Por Janira Rocha.
Apesar de fazer parte de “um dos lados”, venho assistindo aos debates pela Internet acerca da Crise de nosso Psol sem me manifestar por este instrumento; primeiro porque gosto dos embates diretos, nas Plenárias, olho no olho, depois porque escrevo muito mal e tenho medo de ser corrigida em público pelo Milton Temer, nosso lingüista de plantão. Mas ao ver a “deliberação” de parte da Executiva Nacional acerca da anulação da eleição de delegados no Acre, me senti na necessidade de me manifestar.
Ouvi na Conferência do RJ os companheiros (hoje me incomoda chamar de companheiro quem me acusa de fraudadora...). Babá e Chico Alencar questionar a possibilidade do Acre ter crescido do último Congresso para cá e reunir, segundo eles, mais de 90% de seus filiados (informo que foram quase 60% e não 90% como informaram). É muito para o Acre, segundo eles...
Acontece que nossa História junto aos trabalhadores do Acre não começou com o Psol, há muitos anos os acompanhamos, e a grande mobilização que lá se deu para eleger delegados ao Partido só foi possível graças a isto e não as fraudes (que não foram provadas por quem as alega).
A primeira vez que estive no Acre, ainda estudante da UFF, foi em 1981 para a posse de Chico Mendes no Sindicato de Xapuri. Durante este período pude participar de alguns “empates” na Região de Assis Brasil, próxima a fronteira do Peru, onde homens humildes e inteligentes como nunca tinha visto, usavam seus corpos para proteger as árvores e a floresta e defendendo a Reforma Agrária dos seringueiros, índios e quilombolas. A partir daí, o sentimento de solidariedade foi forte, pois vimos milhares destes ativistas serem mortos, emboscados sem que as autoridades nada fizessem, éramos nós que tínhamos que fazer algo...
E nos anos seguintes fizemos como estudantes, moradores da Casa do estudante Universitário (CEU), dentro do emergente movimento estudantil, batalhamos para denunciar o que estava acontecendo, e logo depois, já no movimento sindical, na FASSINPAS e depois na Executiva da CUT – RJ movemos mundos para levar ao Acre, para defender a vida de nossos camaradas lá, carros, rádios amadores, armas e alimentos para garantir a AUTO DEFESA que sempre foi uma marca daqueles trabalhadores que se recusavam a morrer como ratos enquanto nada se fazia por sua segurança.
Em 1985 trabalhamos para apoiar o 1 Encontro Nacional dos Seringueiros e a fundação do CNS (Conselho Nacional dos seringueiros), garantimos a partir da CUT-RJ e outros Sindicatos as viagens dos dirigentes para denunciar as mortes no Acre (e não só lá) e buscar apoio para seguir a luta. Em 1988, no auge do debate da Criação das Reservas Extrativistas, Chico Mendes é assassinado como já estava anunciado. A Imprensa Mundial transformou tudo em um grande espetáculo, mas enquanto isto, Osmarino Amâncio à frente, as ações para garantir a vida dos companheiros tiveram que continuar, pois dentro da Floresta as mortes dos menos famosos continuavam. Pela minha casa e a de outros compas aqui do Rio muitos seringueiros (com sua compulsão louca por arroz) tiveram refúgio.
Estive no Julgamento de Chico Mendes (onde fui expulsa da casa alugada pela CUT para sua delegação por Lula e Avelino Ganzer, que me acusavam de estar levando “instrumentos” de AUTO DEFESA não discutidos pela direção da CUT). Saí daí para a casa de Osmarino Amâncio onde conheci um “Conselho de Anciãos” que me deram uma das mais lindas lições de minha vida a respeito do amor daquele povo pela Floresta e de como iriam às últimas forças para defendê-la.
Em 1992 hospedei em minha Casa Osmarino Amâncio e vários outros compas que estavam no Rio para a Eco 92, e foi após o grande Carnaval da Eco que, em função de suas posições polêmicas, de não aceitar a domesticação imposta pelo PT (a esta altura Lula se reunia já com a UDR e pedia conciliação) e pelos cofres das ONGS, Osmarino começa a ser isolado e sofre vários atentados a sua vida, contando apenas com os próprios trabalhadores da cidade e da Floresta para defendê-la. É obrigado a refugiar-se bem fundo na Floresta para não morrer, ele e outros vários companheiros.
Depois disto, fomos juntos tentar alternativa ao fracasso do PT na Fundação do PSTU, e estamos agora juntos de novo tentando esta alternativa no Psol.
APS, Enlace, C-sol, Babá, Chico Alencar, esse é o nosso trabalho no Acre, não assistimos de fora este processo, estávamos lá, é uma relação de 30 anos de luta, solidariedade, enfrentamentos, tensão, mortes, que vocês “avaliam” não ter capacidade de mobilizar filiados para eleger Nove delegados, esta é a História que querem enlamear com acusações de fraude. Estou pessoalmente revoltada e enojada com esta atitude, e falo por mim, não conversei com o MTL para escrever este texto, mas para mim, apesar de estar desde o primeiro momento na Fundação do Paul, este ainda vai ter que comer muito angu para construir uma História que lhe dê moral para tentar destruir o que construímos em 30 anos no Acre.
E olhando para o “Bloco” que hoje compõe a Direção Majoritária na Executiva (porque na base vimos que é outra coisa), quero dizer aos camaradas da APS que poderiam ter evitado tudo isto, se quando procurados pelo MÊS e pelo MTL para lançar um candidato da APS à Presidência da República, os contas não tivessem se omitido, e tivessem tomado esta tarefa como fundamental para não permitir a divisão do partido. Isto mesmo, nós procuramos a APS, antevendo o que esta acontecendo hoje, mas os compas tinham outras prioridades no uso do aparato do Psol e eleitorais e não se preocuparam com o partido.
O “Bloco” foi de salto alto, achou que seu “aglomerado numérico” era o suficiente para ganhar na base a indicação; não procurou conhecer a base social do oponente, sua capacidade de mobilização para fiscalizar e eleger seus delegados e, no meio do jogo, percebendo o que estava acontecendo correu para mudar as regras: Termo Aditivo retroativo, não respeito aos prazos para recursos, intervenção em Estados sem provas objetivas, uso indevido do Site do partido – instalou-se a política do desespero...
Penso que a APS, direção da insanidade instalada, deva buscar recompor suas forças, debelar sua visível crise nacional, retomar das mãos de seus sindicalistas (nada contra nós sindicalistas, mas alguns só enxergam o umbigo e seus interesses imediatos) a direção política da sua Corrente e cumprir o papel que sua política original lhe permite cumprir neste processo. A APS tem Princípios guardados, política e quadros sérios que podem ser decisivos neste momento, não só para restabelecer o Psol, mas para garantir ao Brasil a possibilidade de ter uma Direção de fato para suas lutas e para intervir na Institucional idade a favor de nossa classe.
A principal tarefa da APS não pode ser destruir Heloísa Helena, ou estará fadada ao destino do Escorpião que pica o Sapo no meio da travessia do Rio...
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